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NOVOS COMPORTAMENTOS – O CAOS NO ENSINO

A minha primeira impressão ao entrar na Escola Pública, localizada na Vila Madalena em São Paulo, foi de um sistema carcerário, com uma pequena abertura na parede, que poderíamos chamar de guichê, porta principal fechada à chave com corrente e cadeado e com uma policial a frente. Estou relatando isso porque, em se tratando de Behaviorismo, fiquei com uma impressão péssima do ambiente que estava a minha volta, sem falar dos professores com um ar pesado, de quem está ali por obrigação, sem muito amor e satisfação transparecendo em seus olhares. Em meio a esse caos – infelizmente, não tenho outra palavra para descrever essa situação e provavelmente terei de repeti-la algumas vezes no decorrer dessa minha análise crítica, fui apresentado para o professor de filosofia. A princípio, ele ficou surpreso e meio desconfiado. Entretanto, para deixá-lo mais à vontade, mencionei que iria apenas observar uma aula para realizar um trabalho.

Sentei na primeira carteira para poder ter uma visão geral dos alunos e do professor. A turma tinha uns quinze alunos, dispersos pelas carteiras, quatro meninas colocaram suas carteiras uma ao lado da outra com as costas para a parede para poderem ficar de frente para todos os alunos. Achei estranho o professor não dizer nada sobre isso. Outros alunos de pé; outros, entrando com justificativas esfarrapadas sobre onde estavam e o que estavam fazendo fora da sala de aula, lugar onde já deveriam estar.

Depois de uns vinte minutos tentando negociar com os alunos, em meio a piadinhas e conversas paralelas, o professor deu início a sua aula. A rebeldia era notória – nunca tinha visto tamanho desrespeito em sala de aula. Fiquei até incomodado. Estou simplificando, pois o comportamento exacerbado e falta de educação predominavam. Senti “pena” do professor que, em meio à tentativa de ministrar sua aula, assumia comportamento parecido com os dos alunos, tornando-se meio adolescente junto com eles.

Sempre me pareceu que a obrigação de aprender e o comprometimento com o aprendizado deveriam ser de responsabilidade do aluno, mas eles demonstravam que não estavam nem um pouco preocupados com isso – pelo menos foi a impressão que tive.

Percebi duas dificuldades: em dar a aula e manter a turma focada no professor, que estava, malabaristicamente, tentando exercer o seu ofício.
O tema da aula era teoria do ato e potência de Aristóteles. O professor, ante a várias interrupções, tentava escrever na lousa para os alunos copiarem. Mas somente metade da turma se dignou a escrever; os demais alunos tinham comportamento que deixaria qualquer ser civilizado atônito.
Ao terminar a aula, dei início à entrevista com o professor que, naquele momento, lecionava para a turma do primeiro A. O docente começa sua fala reclamando do sistema, do governo e se desculpando pela aula que acabara de finalizar.

A estratégia do professor para obter o comportamento esperado dos alunos foi a utilização de recursos que fazem referência a coisas do dia-a-dia deles, para que através da associação pudesse desenvolver o sentido da proposta do conceito da filosofia.
Ele faz uma espécie de negociação, como estratégia, para conseguir atenção e interesse dos alunos sobre o tema que pretende desenvolver. Nessa negociação, tenta despertar o poder de análise crítica do aluno, utilizando recursos alternativos, como, por exemplo, uma música de Milton Nascimento, “Caçador de Mim”.

Considera que essa análise explora melhor o poder crítico de cada aluno, em vez de propor um questionário que o governo prepara, o qual entende equivocado por ignorar que os alunos vêm do ensino médio sem nenhum conhecimento do que seja filosofia. Essa acaba por ser marginalizada por decorre do fato de ser, como ele mesmo expressou: – “apenas uma ciência com a qual, ensina a qual o mundo continua tal e qual”.

A dinâmica usada pelo professor foi a de tentar se parecer com os alunos; apelou para o associacionismo para conquistar empatia, conseguir se envolver com os alunos, porque se colocasse uma postura meio de general, por vezes até gritando para ter a atenção dos alunos, considerava que podia ser ainda pior.

Mesmo com essa dinâmica empregada, ele admitiu ser difícil de manter e controlar os alunos em sala de aula. Primeiro porque eles dão um jeito de sair antes mesmo de o professor entrar na sala, o qual corre o risco de chegar e encontrar a sala vazia. Muitos alunos ficam no corredor, como pude perceber enquanto caminhava até a sala de aula. Claro que não podemos generalizar, tem aulas que, segundo ele, são estupendas – embora eu não as tenha visto.

Não pude perceber uma dinâmica exata que sirva para todos os professores, ou seja, cada um tenta, à sua maneira, chegar ao seu resultado. Inclusive, um aluno veio reclamar com ele sobre a professora de educação física que teria sido meio general e jogado uma bola na cara de um aluno – tudo muito confuso e misturado ao tema que o professor estava escrevendo no quadro.

Mencionou que tem que utilizar do quadro, pois não dá para fazer só conversas e falar de conceitos, uma vez que os alunos não anotam. Se pede para que anotem, tem de parar o tempo todo, porque eles não têm o habito de anotar, por não ser prática na escola, apenas na faculdade – desabafa.
A “realidade é drástica, é caótica, e o professor tem que gerenciar primeiro o caos, tem que, literalmente, se “virar””.
Nesse contexto, o professor apela para a empatia, a fim de se aproximar dos alunos, visando a atingir o objetivo de ter as notas que os alunos precisam. É um estimulo resposta constante para conseguir o que quer dos alunos.

Embora eu tenha tido o desprazer, segundo o professor, de ter pegado a pior turma, esta serviu para que eu visse o real que, infelizmente, se encontra nas salas de aula atualmente: há uma falta de responsabilidade, de respeito para com o professor e, principalmente, de compromisso pessoal em evoluir e ser um indivíduo melhor.

Observei que há uma liberdade exacerbada, na qual o que vigora é o ser rebelde como forma de mostrar a sua diferença, não existindo uma valorização da diferença pela excelência. Poderia associar a uma espécie de modismo entre os adolescentes, como um reflexo condicionado, quando ouvem alguém se levantar, também se levantam; se um aluno pela rebeldia consegue atenção e até parece que ele se destaca, os outros vão atrás para se sentirem inclusos dentro desse contexto. Claro que esses são comportamentos típicos do adolescente, por estarem no processo de formação da sua personalidade e para que não se sintam excluídos dos grupos. É por isso que acabam por assumir comportamentos similares e até mesmo involuntários.

O ensino público, principalmente em São Paulo, segundo observação do professor, é uma tragédia: a proposta do governo é extremamente deficiente e a progressão continuada é ainda mais terrível para o Brasil. Digamos que o que causa muitos danos para o professor em sala de aula é também a progressão continuada, mas não por causa da teoria em si, e sim por causa da sua estrutura. Se o aluno tem nota baixa, vai para o conselho, onde alteram suas notas. Isso ocorre devido à existência de interesses políticos, pois as diretorias de ensino precisam passar os dados para a Unesco, que poderá dizer lá fora: “Agora, o Brasil tem tantos números, etc.”. No entanto, é hipocrisia, já que o aluno não está formado nem capacitado para exercer atividades que exijam maior grau de escolaridade e competências.

Outra observação grave de comportamento incondicionado, que os professores não ensinam, são as violências verbais e do uso em excesso de palavras de baixo calão. Já trazem esse linguajar chulo, essa carga negativa, do seu ambiente. Apenas uma minoria, quase inexistente de alunos conseguem surpreender no sentido positivo, de forma incondicionada, o professor.

A guerra do professor é a de conseguir cumprir as suas metas e tentar fazer com que os alunos também consigam. Sendo o causador desse problema de comportamento, o excesso de liberdade na escola também é o gerador desse dano ao conhecimento. A progressão continuada faz com que o aluno – ao saber que mesmo que não obtenha boas notas, ao final do ano, passará para a próxima série – não se envolva no aprendizado. Isso cria uma espécie de sabotagem a si mesmo. Desse modo, o sistema educacional cria pessoas vazias de conhecimento. A conquista de passar de ano deixou de ser um objetivo, um mérito. A maioria dos alunos só se preocupa com o quanto vai valer a prova ou o trabalho, desprezando o desejo de conhecer. A inclinação humana para o conhecimento, que todos têm por natureza, fica prejudicada. Isso é um problema do estado e da sociedade nos moldes que vivenciamos atualmente.
É, sem dúvida, o excesso de liberdade o grande prejudicial para o conhecimento. O não limite e o descomprometimento com o saber deixam os alunos dispersos. Qualquer coisa que se queira mudar tem que ser com muita delicadeza, porque se não a sala faz escândalo, grita e pratica atos violentos. Com essa liberdade e a proteção por parte do sistema, o aluno sabe de seus direitos e até cita o ECA – Estatuto da Criança e do Adolescente -, caso o professor os confronte, ou seja, parece que os alunos se interessam mais por seus direitos à rebeldia que por seus direitos ao conhecimento. Então, o professor encontra uma barreira que é o seu próprio alvo: o aluno, que não quer aprender com seu professor, e isso é drástico.
O desenvolvimento da ética e da moral acaba por ser a única forma de extinguir alguns comportamentos indesejáveis, mas deve ser sempre feito com muito cuidado.

Outro conceito é quando falamos de valores, dos novos valores, não é possível voltar aos valores antigos, mas é possível construir novos valores e os alunos parecem resistir um pouco a isso. Atualmente, acredito que estamos atravessando um processo, no qual não queremos os modelos antigos, mas não temos ainda um modelo novo. É como se estivéssemos numa espécie de entre safra, onde já não queremos plantar o que plantamos antes e não sabemos ao certo o que implantar no momento. Isso faz com que o mundo esteja sem paradigmas, devido à essa ausência de um modelo e, também, porque adotou diversos paradigmas que precisam ser reformulados.

A juventude parece muito com o nada, sem referência; já não aceitamos um sistema opressor, ditador – podemos até perceber essa mudança ocorrendo com a queda de vários ditadores no momento -, entretanto, queremos uma nova liberdade, mas não estamos sabendo lidar com ela e estamos criando um caos, antes escondido pela repressão e, agora, visível e sem controle.

Hoje, a juventude de fato é o nada. Termina os estudos, a escola, e não causa nenhum impacto, nenhum movimento; não é questionada nem estimulada a ter sucesso. Atualmente, é desafio para a filosofia conseguir isto: o resgate do eu, pois há uma necessidade de que os jovens se procurem consigo mesmos, não para se fecharem no que encontrarem, mas sim para estarem abertos ao que vier.

A filosofia visa a instruir a pessoa a fim de que perceba que é uma entidade que gera resultado. Que resultado é esse? Qual é o propósito do meu ser? A semente vira uma árvore. Portanto, o que o aluno pretende ser enquanto semente é o que será, lá a frente, no seu futuro.
Para extinguir um comportamento indesejável dos alunos, o professor precisa se posicionar mostrando ao aluno que o seu comportamento não está agradando. Caso não resolva, a única hipótese é recorrer ao modelo antigo de mandar sair da sala de aula. Mas a ideia é conseguir que o aluno consiga ouvir sem apelar, sem impor de forma autoritária.

Para obter resultado é importante que o professor utilize coisas lúdicas como filmes, músicas, por exemplo, para conseguir transmitir e gerar o questionamento necessário, a reflexão, para que, dessa forma, os alunos se sintam atraídos e entrem na proposta da filosofia. O professor precisa ser criativo, criar uma ambientação para conseguir a atenção dos alunos. Ele deve ser um exemplo a ser seguido, pensar na posição que ocupa de orientador, um modelo para adquirir o respeito. Porém, há que se fazer um esforço muito grande, por parte do professor, para conseguir a atenção do aluno, a fim de trazê-lo para dentro do processo a que se propõe. Por vezes, até negar atitudes de repressão para não criar uma antipatia, se não perde o aluno. É como se fosse um jogo constante, uma briga para conseguir algum resultado, cujo objetivo – e o mais difícil – é fazer com que a aula seja absorvida.
Por exemplo, o professor fala sobre racismo, dizendo “não” ao preconceito. De repente, vem uma atitude preconceituosa dentro da sala de aula. É obvio que a pessoa não absorveu o aprendizado. Esses recursos lúdicos são, justamente, uma alternativa para se conseguir desenvolver consciência sobre um determinado tema, e, por isso, um filme ajuda nesse processo.

Atualmente, a resistência dos alunos ao saber parece-me ser uma vingança pela repressão que nossos pais e avós sofreram nas salas de aula no passado, o que torna essa resistência muito maior do que o interesse em aprender. Isso é lamentável. Eles não querem estar na sala de aula, e não existem estímulos para isso, embora haja algumas tentativas.

O que é mais prejudicial à educação é o modelo, a sua a estrutura, além de algum despreparo de alguns professores. Percebe-se que existe um caos a ser gerenciado para que, depois, se consiga atingir o objetivo que é ensinar. Esse conflito está presente nas escolas atualmente.
Para conseguir e manter um comportamento desejável é necessário o reforço através de elogios, não apenas por notas que são apenas uma consequência, mas é necessário se envolver com o aluno, descer a sua esfera de compreensão e tentar trazê-lo para o conhecimento. Por vezes, é necessário que o professor se sente com o aluno para dando toda a sua atenção, para que ele se sinta acolhido. O reforço é de dar toda a atenção, ajuda a cada um, procurar ouvir o aluno, participar da vida dele, oferecer saídas, é tentar obter carisma a toda hora porque o professor, a meu ver, só pode sentir que o seu objetivo foi cumprido quando consegue que o aluno adquira o conhecimento que ele tem que transmitir.

Frente a um comportamento negativo, a melhor opção seria expor aos pais, que são também responsáveis pela educação. É importante compartilhar com a família para que essa conduta possa ser vigiada e, consequentemente, melhorada. Creio que o caos não esteja só no aluno, mas na família e no sistema de uma forma geral.

A ferramenta para uma melhora ainda é o desenvolvimento de valores morais e éticos, cidadania e, principalmente, o desenvolvimento de carisma, sendo melhor escolha que a imposição. Essa seria uma boa alternativa frente a esse conflito e ao caos atualmente instalado no sistema educacional paulista. Com essa ideia, se desfariam os traumas e o clima de inimizade entre professores e alunos. Ademais, o professor passaria a ser respeitado e considerado como um bom modelo de ser humano a ser seguido. Os alunos, por sua vez, espelhando-se em algo bom, criariam novas referências para suas próprias vidas e para uma sociedade melhor.

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