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Filosofia do sofrimento

“Solidão é o vazio da alma que perdeu o amor próprio”

Sofrimento, o que vem a ser essa sensação? O que pode ela nos oferecer além de um pesar? Essas são apenas algumas indagações sobre o que nos leva de um estado de graça para um estado de tormento.
O sofrimento pode conter muitos desprazeres, mas sem ele não haveria aprendizado. É pela dor e pela perda que se aprende a valorizar.
Para muitos, nos dias de hoje, o sofrimento é uma coisa ruim que deveria ser excluída de nosso cotidiano; algo que parece pertencer a certas pessoas e que a todos nós um dia pode bater a porta. Muitos filósofos, com seus questionamentos na procura de sentido para as experiências, tentaram reduzir esse sofrimento, muitas religiões consideram como castigo, outras filosofias consideram como parte do que chamam de carma ou lei de causa e efeito, resultante de ações desequilibradas. Essa tentativa de entender, transferir para algo superior ou mesmo como mera fatalidade da vida, não minimiza o pesar, por mais consolo que se possa receber de religiões ou de explicações filosóficas.
Visto como um sentimento que causa dor, o sofrimento é desolador, angustiante, retira a autoconfiança, corrompe a fé. Mas devemos perceber que talvez esses sentimentos não são necessariamente ruins. Sofrer significa muito mais do que isso, ao contrário da opinião popular, é algo vantajoso na vida. Sem sofrimento não há vitória, consequentemente, não há sucesso.

O sofrimento atinge todos os seres humanos e é tema de pesquisas de psicólogos, filósofos e religiosos, porque, afinal, ao se questionar sobre os motivos do sofrimento, entramos no campo de um dos mais antigos paradigmas dos seres humanos, que consiste no saber administrar as emoções resultantes de situações incompreendidas. Foi justamente querendo encontrar uma razão para esse sentimento que muito se descobriu, mas que ainda a muito para se descobrir sobre a essência humana.

Como algo permanente, pelo menos na esfera real na qual todos os seres humanos vivem, este problema continua a atormentar, conseguiu atravessar os tempos e, na atualidade, motivou pesquisas científicas, virou um negócio vantajoso pelo crescente mercado de remédios e por um verdadeiro arsenal de terapias duvidosas, que prometem transformar esse sentimento de tristeza em alegria.
Entretanto, na procura por uma solução, as pessoas acabam por correr atrás de alguém ou de algo para se livrarem desse problema, desenvolvem dependência e se tornam vulneráveis. E é justamente nesse contexto que entram em ação – aproveitando-se dessa fragilidade – certas seitas e muitos charlatões, assim como a utilização de remédios que mascaram o problema, mas não o resolvem. Além disso, as pessoas podem recorrer a subterfúgios como o álcool ou as drogas, o que contribui para o aumento do sofrimento, não só para a pessoa como para todos que fazem parte da sua relação.

A catarse ou sofrimento, a que todos nós iremos vivenciar de uma forma ou de outra – caso não seja revista a postura na vida -, representa a purificação, evacuação ou purgação de comportamentos, atitudes, formas de pensar e de sentir que contribuem para bloqueios, essa espécie de sobrecarga de energia, faz com que a catarse apareça.
Segundo Aristóteles, a catarse refere-se à purificação das almas por meio de uma descarga emocional provocada por um drama. Ela pode surgir por meio de vários tipos de manifestação, como: doença, perda de emprego, perda financeira, falência, separação, rupturas, divórcio e até acidente, o que fatalmente obriga a pessoa a rever a sua atuação.

O conflito proporciona desenvolvimento tanto de forma positiva quanto negativa, depende de como o indivíduo irá perceber e se envolver com esse seu sofrimento, o qual pode se tornar em um forte aliado do ser humano ou, ao ter interferências que não o resolvem, transformar a pessoa em fraca, aquela que se coloca como vítima do processo ou procura achar um culpado. Essa tentativa inútil para se sentir melhor, mas apenas resulta no oposto ao que se pretende, pois o conflito só se pelo conhecimento dos fatores que o regem. Quaisquer tentativas de minimizar o conflito e o sofrimento, como afogar as mágoas, confortar e consolar a pessoa, pode interferir no aprendizado da superação desse obstáculo de vida.

O sofrimento que parece ser mal pode ser bom, depende de como iremos perceber a mensagem intrínseca no sofrimento. O que se tem por ser ruim pode ser muito bom ao se conseguir, pela experiência, o que precisamos e necessitamos transformar na vida.
Quando se vê o sofrimento como uma hipótese de conhecimento, quanto mais fundo possa se ir, mais profundo será o descobrimento do que pode fragilizar, vulnerabilizar a essência do indivíduo, o caráter e a ética humana, porque é no sofrimento que se percebe como a pessoa se domina, como sabe lidar com as intempéries da vida e as quantas andam a sua confiança, fé em si mesmo.
É no conflito que percebemos que toda ação gera uma causa e um efeito, portanto, não existe vítima, mas sim cúmplices de processo, e ninguém causa sofrimento apenas é permitido sofrer com o acontecimento. O sofrimento dura até que se aceite a realidade.
Com o conhecimento adquirido por meio do sofrimento, percebe-se o que se necessita e precisa transformar. Ao transpô-lo se ganha força interior, melhora a saúde, aumenta o sistema imunológico. Ao estabelecer uma relação harmônica com o meio, o coração fica mais saudável, o estresse vira compreensão, ao lembrar e dar risada do que sofreu, se aumentam as defesas imunitárias. Todos temos medo desse universo obscuro, no qual tememos entrar, porém, o que parece ser obscuro é muito claro, porque aprendemos muito pelo sofrimento.

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